quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Um amigo no bar

Bateu o copo de cerveja na mesa e disse em tom definitivo: "O ser humano é canalha, corrupto e covarde." Não houve discussão e nem desentendimento. A verdade estava ali, para qualquer um escutar. Sabendo-se da história dele não haveria muito o que argumentar. Havia uma tristeza crua em sua voz. Não o cinismo de antes. Esse tinha ido embora.

Prosseguiu: "Nossa fraqueza exige que busquemos no outro o que não conseguimos achar em nós mesmos. Mas não é como nas historietas de amor. Somos tão medíocres que buscamos quem brilha pra iluminar nossa escuridão". A porra do Nietzsche estava certo e olha que quase nunca dou razão para alemães e austríacos, vide Hitler e Kant. O futebol deles - dos alemães em geral e não do Hitler ou do Kant - também é sofrível, você bem sabe.

Era assim que as coisas funcionavam e o peso de mais um ano só confirmava a teoria. Quem se aproxima de nós é tratado com desdém. Temos desconfiança e um ar de superioridade. "Sou muito pra ela ou pra elas todas", explicou. Seus relacionamentos que mais duraram eram aqueles baseados na desconfiança mútua. Um eqüilíbrio perverso de carência e uma queda de braço emotiva. "Ela me queria quando eu fugia e eu queria ela quado ela fugia. Um dos dois pode querer alguém melhor e achar um parceiro milímetros acima do que cada um tinha para oferecer", disse ele limpando a mesa com guardanapo. A cerveja vazava pelas bordas.

Os dois tinham outros, é público e notório. Mas, veja bem, ninguém queria um casal daqueles tão chatos. Ambos sabiam que demonstrações públicas de afeto e recadinhos apaixonados eram sinais de imbecilidade, pra dizer o mínimo. Gente assim também estava se escondendo, de certa forma. A fidelidade proclamada é o escudo dos fracos. "Casais ditos felizes formam uma redoma ao seu redor. É medo, pode anotar aí", vociferou.

Tinha há tempos largado a idéia de deixar a boêmia. Uma vida só de livros e trabalhozinho é assinar um atestado de mediocridade. Bares são coisas tristes e sujas. Falsas e vazias. Mas é onde a vida acontece. Qualquer coisa fora disso é minar sua existência. "Ele tem medo de mim e ela me fodeu, mas ela sabe que eu fodi ela antes. O mais gostoso é nunca assumir a traição. Deixe ela com os fantasmas dela. Eu tenho aqui os meus."

2 comentários:

geraldo boa morte disse...

Não sou daqueles que volta do passado ou o trás à tona novamente. Mas já que se manifestou. Sinto em dizer que sou daqueles que proclama a fidelidade.
Pior. Sou o falso pregador. Digo ser fiel para conseguir a fidelidade dela. Acho que é normal. Nunca me indignei com isso. Nem sei se é falsidade. Garanto que acontece com elas também. Comigo é assim.
Fato é que sou fiel quase todos os dias. Não é suficiente?
geraldo boa morte

marie. disse...
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