de Melissa Bergonsi
Quem tem um amigo, desses que o coração se amansa quando se está perto, vai entender o que vou falar sobre o Jornalismo. Não há como ter um amigo sem que sua alma não respire solidariedade.
Para exercer o jornalismo, a solidariedade tem que ser inerente. Ajudamos um amigo a carregar a mudança, damos ombro a ele, aplicamos uma carraspana quando está errado e costumamos ajudá-lo a pechinchar por um preço mais justo na feira da semana. Quanta semelhança.
No Jornalismo, há que se ter esta vontade. Escrevemos porque queremos ajudar as pessoas a encontrarem seus caminhos, a escaparem de um golpe, a encontrarem preços mais justos, a conhecerem exemplos de vida. É com as letras que tentamos melhorar a vida de alguém. A caneta é nossa espada de Dom Quixote contra os moinhos de vento. Não há como ter um amigo sem que sua alma não respire honestidade. Para exercer o Jornalismo, a honestidade tem que ser inerente.
Por mais que doa, contamos a um amigo o quanto ele está inapropriado. Não permitimos participar de falcatruas, nem que seja pra ganhar o jogo de futebol entre os amigos do Saraiva e amigos do Osvaldo. Falcatrua não vale. É assim no jornalismo.
Não se aceita safadeza, nem se compartilha e não se lucra com ela. No Jornalismo, tem que se escrever a verdade. Nem uma letra a mais, nem a menos. É a honestidade com a fonte, a honestidade com o leitor. Não vale roubar dinheiro, não vale roubar idéias, não vale roubar versão. Nem penso em ter um amigo se não guardo em mim a noção de respeito. É a mesma coisa no Jornalismo. Na relação de amizade, cabe a bronca sem humilhação. Cabe a discussão sem xingamento e cabem as brincadeiras sem exageros infames. Precisamos saber a hora de parar, o limite.
No Jornalismo, o respeito é premissa básica. Não se passa por cima de ninguém e é pecado usar o Jornalismo para isso. Não somos juízes, não somos deuses e não devemos nunca gozar do defeito da prepotência. Cabe dentro da noção de respeito, a humildade, o compromisso com a verdade, o limite. Amizade é feita de duas pessoas. Jornalismo é feito de toda humanidade. E como conviver com um amigo se em você não mora a compreensão?
No Jornalismo, compreensão é regra como se fosse um dos dez mandamentos. Façamos o caminho inverso: para compreendermos um amigo, seus problemas, frustrações, desejos e vontades, devemos antes de tudo estar disposto a ouvi-lo. Quem não fecha a boca, não usa o dom da audição, não pode ser amigo. Nunca vai descobrir a pessoa que te acompanha. Nunca terá se importado verdadeiramente com ela.
Há quem pense que o Jornalismo é a profissão da expressão verbal. Seja escrevendo, seja tagarelando. O Jornalismo é a terra da audição, o planeta da atenção a quem fala, a galáxia das histórias.
Você só conta algo a alguém se puder antes ter ouvido verdadeiramente uma história. No Jornalismo, aprendemos a deixar os outros falarem. Somente a compreensão te qualifica a escrever uma boa história. Sem ela, o que existe, é a sua história e não a dos outros.Não há jornalismo sem história. Não há história sem compreensão, não há compreensão sem que se saiba ouvir. Aliás, não há amizade sem envolvimento. No Jornalismo, a frieza te torna incompleto. Não há quem não pense em um amigo sem que se tenha vontade imediata de dar (nele) um abraço demorado.
No Jornalismo, jogue fora seu texto se você não quer abraçar sua pauta. Não há como ser amigo sem que se envolva. Sem envolvimento nosso tempo fica escasso. Não há espaço na agenda e sobra preguiça de atravessar a rua para dar os parabéns no dia do aniversário. Podemos cultivar bons papos por email, mas nunca viveremos uma história completa.
No Jornalismo, só quem sabe se envolver tem vontade de ir pra rua escarafunchar uma bela reportagem. Quando a gente se envolve, não há tempo que falte para visitas, conversas, entrevistas e para um texto bem apurado. Hoje em dia, as amizades ficam cada vez mais virtuais.
O Jornalismo cada vez mais burocrático. Para se cultivar um grande amigo é preciso levantar do sofá e praticar os bons valores. Para se fazer o bom jornalismo, também.
Nota do blogueiro: Peço licença aos amigos de blog para publicar este texto que fala também sobre outros amores da minha vida e da autora, o jornalismo e a amizade.
3 comentários:
me fascina o "mundo das idéias" e o "dever ser". acho bonito a raiz da profissão. penso assim do direito tb. bonito na teoria. :)
É uma visão absurdamente romântica da nossa profissão, claro.
Mas, de tempos em tempos, é quase... humm, refrescante ler um texto assim, inspirador.
Adoro sua paixão por essas duas coisas... sinto ela em você.
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