sexta-feira, 6 de março de 2009

Tocar é arte

Eu queria compor uma música que falasse de coisas óbvias, que tivesse uma melodia simples, notas fáceis e pudesse ser cantada por qualquer um, ao pé ouvido. Eu queria ser capaz de colocar, na letra, sentimentos universais mas que fossem também intensos, daqueles quase incompreensíveis. Eu queria uma banda de dois, sem público ou palco. Um dueto de espelhos, onde nós - e apenas nós - aplaudíssemos juntos cada passo bem dado pelo destino, que usa da nossa música como trilha sonora dos vai-e-vens de acontecimentos. Queria que o peso das escolhas se tornassem a leveza da liberdade e que tocasse, internamente, meu instrumento de percussão que, mesmo solitário, dá conta de dar o ritmo necessário e segurança o suficiente para que a música nunca pare. Eu queria uma sensibilidade que não me tirasse a razão e uma razão que usasse dos meus olhos fechados para aumentar meu potencial de percepção, e não diminuí-lo. Queria meus dedos correndo por todo seu corpo e que este reagisse de diferentes formas a cada toque, como se cada arrepio fosse uma nota bem afinada. Queria uma harmonia perfeita entre o clássico e o novo, entre a maturidade e a fome de aprender. Queria que o vento que acaricia meus cabelos seja em clave de sol e que só pare de balançar meus fios avermelhados quando for substituído por suas mãos. Estas que encontram em mim um instrumento de prazer, no seu mais amplo sentido. Eu quero uma banda de dois que se baste, mas que não se renda. Que não deixe de assistir ao espetáculo dos outros. Uma banda que não enjoe do mesmo repertório, que se emocione a cada dificuldade atingida com a perfeição, que queira manter a harmonia custe o que custar.Eu não quero um maestro, quero um amor. E que este soe natural, assim como uma música escrita para alguém que ainda há de vir.


(Texto extraído deste blog http://www.pingacombambu.blogspot.com )

2 comentários:

geraldo boa morte disse...

Sem palavras, Lou. Espetacular.

Guilherme Voitch disse...

Ficou bom pra caralho. Só não sei se o jovem merece...